Pokémon GO

Pokémon GO é o assunto do momento. Nem eu aguento mais escrever sobre isso. Fato é que o jogo é um sucesso sem precedentes, nos aspectos técnico, cultural e econômico. Porém, a empolgação da maioria parece ter ocultado os aspectos negativos desse fenômeno.

Nos videogames normais, a violência que vemos está localizada na tela. Porém, com Pokémon GO, as pessoas jogam no mundo real. E isso faz com que um grupo de “especialistas” voltem à carga, implantando o terror sobre a influência dos videogames no perfil psicológico de jovens e adolescentes. O que pode vir depois disso é perigoso: se não tomarmos cuidado, a mudança cultural à força pode ser irreversível. E para pior.

 

Tá todo mundo louco. Oba!

pokémon go central park

Não é o primeiro caso de fenômeno coletivo centrado no mundo dos videogames, e não será o último. Além disso, há quem diga que “a idiotice não tem idade”, dando a entender que muitos jogadores de Pokémon GO contam com um QI um pouco abaixo da média.

Mas isso não é uma exclusividade dos videogames. A TV, a internet e outros veículos de mídia e comunicação também produzem esse efeito de distorção. Mas no caso de Pokémon GO, como é um jogo muito imersivo, ele aumenta as possibilidades de vícios e, por consequência, os acidentes com o mundo externo.

Até Oliver Stone falou sobre o assunto na Comic-Con 2016 de San Diego, afirmando que Pokémon GO é “um novo nível de invasão na vida das pessoas, e um claro exemplo do capitalismo de vigilância”.

Não é de hoje

A curiosidade é um traço da personalidade humana, e toda inovação tecnológica foi acompanhada de uma reação anti-tecnológica. Por exemplo, o trem, um dos meios de transporte mais seguros do mundo, foi considerado em 1835 uma ameaça às vias respiratórias e mentais, por conta dos movimentos de trepidação e rápida sucessão de imagens em movimento. Sem falar na ansiedade perpétua diagnosticada na época e riscos de aborto prematuro.

Mas, de novo. Era um conceito bem antigo, que hoje não se aplica.

Podemos buscar vários exemplos históricos, mas a ideia é a mesma: o novo é recebido com paixão e entusiasmo por uns, e com medo e alarmismo por outros.

 

Por que reagimos assim?

pokémon pikachu

Um dos discursos recentes mais fortes é que estamos perdendo a capacidade de apreciar as coisas importantes, onde a juventude se perde na experiência, e os antigos sempre tentam pontuar em algum momento que “isso no passado era melhor”.

Não é bem assim. Não é porque deixamos de aproveitar as coisas importantes. É que as coisas que nos importam estão mudando. Os interesses e valores do passado são radicalmente diferentes do que temos no presente. Por consequência, nossa sociedade e suas diferenças culturais também são muito diferentes.

A tecnofobia é apenas uma das formas que o medo e a incredulidade se instala. Nossa estabilidade psicológica e social se baseia no fato que “precisamos fazer o que precisa ser feito”, nas temos apenas ideias superficiais e prejudiciais sobre o que supostamente precisa ser feito.

Não é tão difícil entender isso. É a filosofia Jack Bauer, basicamente. Com a diferença que a maioria da sociedade pensa como Charles Logan.

Compreensível, mas não justificável

Para muitos, o fato de milhares de pessoas fazerem coisas que eles consideram estranhas é um motivo para estresse e ansiedade. E isso é normal, e (quase) sempre foi assim. As mudanças sociais são traumáticas, mais ainda quando temos como elemento básico a ignorância e a falta de pesquisa sobre o assunto. Ainda não encontramos um equilíbrio entre a tecnofobia e o tecnoentusiasmo.

Mas isso não quer dizer que esse medo todo do Pokémon GO está justificado. A solução não passa por bombardear as novas gerações com mensagens moralistas, mas sim dar ferramentas analíticas e técnicas para que eles decidam quais coisas são importantes para eles.

Se a preocupação de alguns é o mundo em que vivemos, vale lembrar que, goste a gente ou não, esta é a realidade. O futuro dos próximos 50 anos tem mais a ver com aqueles que jogam hoje o Pokémon GO no Central Park do que com aqueles que dão risada deles nos debates televisivos.