No último final de semana, a Apple iniciou mais um capítulo na interminável “guerra de patentes” contra a Samsung. Não satisfeita em adicionar oito dos smartphones da fabricante coreana na lista de produtos que devem ser retirados do mercado norte-americano (a maioria deles são variantes do Galaxy S II), no último sábado (01), a gigante de Cupertino adicionou na lista de “banidos” os três principais produtos dos coreanos, o Galaxy S III, o Galaxy Note e o Galaxy Note 10.1. O motivo para o banimento está relacionado à funções específicas dos dispositivos, como os recursos de busca universal, toque em um número de contato para chamada e o “slide to unlock” (ou “deslizar para desbloquear”) a tela.

Vale lembrar que essa solicitação é uma ação diferente daquela que deu ganho de causa para a Apple contra a Samsung, decisão essa tomada pelo tribunal da Califórnia, que resultou em uma pena de pagamento de mais de US$ 1 bilhão para os coreanos em relação aos norte-americanos. Porém, a Apple só está tomando tal iniciativa agora porque tem o suporte dessa primeira decisão nos Estados Unidos.

Independente de qualquer coisa, é preciso que seja dito que… já deu esse papinho do “eles copiaram o meu deslizar de tela” ou “só nós podemos usar o tocar no número para ligar para outro telefone”. São coisas tão pequenas e irrelevantes dentro de tudo o que está envolvido nessa disputa, que beira ao ridículo tais iniciativas da fabricante de Cupertino. Mesmo porque, se a Samsung for esperta, vai simplesmente lançar um update para esses dispositivos, adaptando tais funções para algo que a Apple não possa ficar “pegando no pé”, para não falar outra coisa.

Dentro dessa confusão, que envolve dinheiro, mentiras e produtos de tecnologia proibidos de chegar até o mercado, só há um perdedor: o consumidor.

De novo, para deixar bem claro: eu defendo que tudo tem que ser feito dentro de uma ética, que fabricantes devem seguir as regras de busca de inovação, e que a melhor forma de conquistar o consumidor é mostrando produtos cada vez melhores. Logo, quem burlou essas regras, merece sofrer as consequências disso. Mas… e quando os dois lados se envolvem nas mesmas táticas? Mais: e quando diferentes países acabam vendo a mesma questão por óticas diferentes?

É importante lembrar que a lei de patentes (e como a violação é interpretada) é diferente de país para país. Por isso, Apple e Samsung duelam em diferentes tribunais, pois cada legislação vai ver a mesma questão por diferentes óticas. É mais ou menos como funciona a vida em sociedade, com a diferença que ninguém vai ter que pagar mais de US$ 1 bilhão porque copiou a receita do caderninho da Palmirinha Onofre, entende? Logo, só para início de conversa, posso afirmar que NÃO EXISTE O LADO CERTO NESSA BRIGA, pois é um clássico caso que “a razão terá diferentes lados e perspectivas”.

Por exemplo, no Japão, a Samsung foi considerada inocente, ou seja, não violou algumas das patentes da Samsung. No Reino Unido, um juiz decidiu que o Galaxy Tab 10.1 não copiou o iPad (segundo ele, porque “o Galaxy Tab não é tão legal como o iPad”), e na Coreia do Sul, “casa” da Samsung, as DUAS EMPRESAS FORAM CONSIDERADAS CULPADAS, ou seja, tanto Apple quanto Samsung usou de forma irregular as patentes uma da outra. Resultado: as duas foram multadas.

Logo, antes que você, Apple Fanboy, saia por aí gritando aos quatro ventos a frase “a Samsung teve o que mereceu”, vai com calma. Isso foi só nos Estados Unidos, em um julgamento no tribunal da Califórnia, com uma decisão que, de forma estranha, saiu muito rapidamente, e que a Samsung jamais venceria com os argumentos apresentados. Aliás, a Apple vem colecionando derrotas na “guerra de patentes” em outros mercados considerados tão relevantes como o norte-americano. Na Alemanha, por exemplo, eles foram considerados culpados de copiarem patentes de rede da Motorola, e tiveram que pagar para a Moto pelos danos causados.

Aliás, a Samsung já está de olho no próximo iPhone, que deve ser lançado em 12 de setembro. Segundo circulou na mídia especializada na última semana, se a Apple mencionar o termo “4G LTE” na apresentação do novo smartphone (indicando que a tecnologia de rede de quarta geração está presente no produto), de forma imediata, os advogados da fabricante coreana entrarão com uma ação contra a empresa de Cupertino, pois no entendimento deles, a tecnologia que a Apple vai utilizar será aquela que a Samsung patenteou, usando assim essa tecnologia de forma irregular.

A “guerra de patentes” virou uma batalha jurídica escancarada, de ataques e contra-ataques, com efeitos e consequências que só prejudicam ao consumidor, ao verdadeiro fã de tecnologia. Não quero viver em um mundo onde só uma marca pode “inovar” (coloco “entre aspas” porque, se o novo iPhone for aquilo que vazou em fotos na semana passada, ter uma tela maior e nada mais não é uma inovação). Muito menos viver em um mundo onde tudo é resolvido na canetada. Para mim, o que realmente importa é ver produtos melhores nas lojas, e que os fabricantes gastem o seu tempo e dinheiro tentando convencer o consumidor que o seu produto é simplesmente melhor.

É claro que “quem tem, tem medo”. A Samsung já pensa no pior cenário possível, que é modificar os seus produtos envolvidos nas acusações da Apple, e seguir com a vida daqui para frente. A Apple, por sua vez, teme que o domínio da Samsung seja ainda maior, uma vez que os coreanos já dominam o mercado de smartphones, e que até mesmo o principal smartphone que, na sua estética, se distancia mais do iPhone (o Galaxy S III) é um grande sucesso, o que prova que não é só “copiando” a Apple que a Samsung se dá bem. E, de fato, colocando lado a lado, o Galaxy S III é sim muito melhor do que o iPhone 4S.

Ao meu ver, as duas gigantes de tecnologia precisam esquecer os tribunais e se preocupar comigo, com você, com todos que compram seus produtos. O consumidor é o principal juiz dessa batalha. Não vou aceitar à fórceps que um tribunal me diga qual smartphone eu posso comprar. Eu quero comprar aquele que é o melhor produto para o meu uso. Simplesmente isso. Apple e Samsung vão disputar os seus bilhões de dólares nos tribunais ao redor do planeta. Bilhões de dólares que todos os dias os geeks ao redor do planeta ajudam a engordar.

Mesmo porque, no final das contas, o risco que as duas correm é serem ridicularizadas pelos próprios usuários. Como na sugestiva foto abaixo.