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A maçã está caindo do pomar, e Tim Cook não está se dando conta disso. Você pode não ter ficado sabendo (ou, se é um Apple Fanboy, fingiu que nada aconteceu), mas ontem (17), a Apple registrou uma das suas quedas de ações mais fortes em muito tempo, perdendo 5.5% do seu valor de mercado, chegando a valer menos de US$ 400 em um determinado período do dia de ontem (depois, voltou para a casa dos US$ 402). Pode parecer pouco para uma gigante como a Apple, mas isso significou uma desvalorização de nada menos que US$ 23 bilhões, em um único dia. E a pergunta é: como isso aconteceu?

Para vocês terem uma ideia do quão significativa é essa queda, as ações da Apple não valiam menos de US$ 400 (ou US$ 23 por ação) desde 2011, antes do lançamento do iPhone 4S. Depois disso, as ações da empresa de Cupertino tiveram uma ascensão incrível, alcançando a invejável marca de US$ 705, logo após o lançamento do iPhone 5, em setembro de 2012. Porém, desde então, foi uma queda livre, e com os números de ontem, a Apple registrou uma perda de 35% de valor de mercado desde o lançamento do seu último smartphone.

Mas, para uma empresa que se diz muito satisfeita com as vendas dos seus produtos, se desvalorizar do dia para a noite é algo no mínimo muito estranho, não acham? E eu concordo com você. Essas coisas não acontecem por acaso, e alguns motivos explicam essa queda vertiginosa nas ações da Apple. O primeiro deles é aquela velha máxima que venho batendo na tecla há tempos. Aliás, eu e muita gente falamos em coro: a Apple não é mais capaz de surpreender e de se reinventar.

Tim Cook tinha uma missão ingrata nas mãos: manter a Apple inventiva, forte e diferenciada. Até está tentando suas mudanças (principalmente no iOS, e de forma mais especulativa, com um possível iPad 5 mais próximo da proposta do iPad Mini). Mesmo assim, ele não tem o peso de Steve Jobs, e parece estar tropeçando nas próprias pernas em algumas decisões. O Apple Maps que nasceu incompleto, e um provável iPhone 5S sendo “o mais do mesmo” são as piores notícias que os seus investidores e clientes fiéis querem ouvir e ver. Mas isso não é tudo.

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O gráfico das ações da Apple feito pelo site da Mashable apenas mostra os traços de um cenário que começa a ser nebuloso para a Apple. O principal motivo para a Apple perder o seu valor de mercado é a desconfiança geral dos investidores, parceiros e analistas sobre a perspectiva da Apple em continuar a obter os lucros trimestrais crescentes. Vale lembrar que no último trimestre fiscal da empresa (Q1 de 2013, segundo trimestre fiscal da Apple), mesmo com Tim Cook orgulhoso em declarar que a sua empresa obteve vendas recordes para o período, o crescimento dos lucros líquidos em relação ao ano passado (2012) praticamente estagnaram. A empresa lucrou, mas não lucrou muito mais do que lucrava antes. Ou seja, as projeções para o Q1 de 2014 já apontam redução nos lucros quando esse período for analisado no ano que vem.

Mas o temor vai além disso. Muitos acreditam que a Apple não vai ter números muito expressivos nesse segundo trimestre de 2013, uma vez que é um dos períodos mais fracos de vendas, e naturalmente se vende menos no mercado em geral. Mas calma, não é só isso.

Se olharmos para os lados, os concorrentes lançaram smartphones e tablets muito bons nos últimos três meses, o que naturalmente faz com que parte do mercado da Apple nesses dois segmentos seja dividido com os demais fabricantes. A situação no mercado dos tablets é ainda mais séria, pois se antes o iPad era o tablet dominante, hoje essa diferença caiu de forma considerável, e a tendência é que os pequenos tablets Android com tela de 7 polegadas sejam os líderes. Combinados, lembrando sempre.

A Apple ainda é uma empresa forte nos principais mercados. Mas não podemos negar que Samsung, Sony, LG e Motorola apresentaram produtos muito bons nos primeiros três meses do ano no mercado de smartphones e tablets (nos tablets, mais a Samsung, com o Galaxy Note 8.0), e ainda devem apresentar nos próximos meses (não vamos nos esquecer de um novo smartphone Nexus e do Motorola X). Tudo isso colabora para uma redução de lucros da Apple no próximo relatório financeiro da empresa.

Se já não bastasse essa competição toda, a Cirrus Logic, que é uma das principais fornecedoras de componentes para a fabricação do iPhone e iPad, divulgou previsões financeiras abaixo das expectativas do mercado. E, tal como qualquer coisa nesse mundão de Meu Deus, “para um bom entendedor, meia palavra basta”. Os investidores logo sacaram isso, e interpretaram como um sinal de baixa demanda dos produtos da Apple. Sim, porque “previsões financeiras abaixo do esperado” quer dizer “estamos lucrando menos, porque estamos vendendo menos componentes”, que quer dizer “nós, da Apple, não estamos comprando tantos componentes da Cirrus Logic, porque não estamos precisando desses componentes… porque estamos vendendo menos unidades dos nossos produtos”.

Alinhado à isso, Peter Misek, analista da Jefferies, afirmou que tem informações de fontes próximas ao pessoal de Cupertino que alguns problemas na linha de produção atual da Apple devem atrasar o projeto do próximo iPhone. Problemas na linha de produção atual pode ser lido como “diminuímos nossas linhas de produção porque nossa demanda está sendo menor”. Ah, e antes que você diga, eu falo por você: eu sei que a Foxconn está contratando mais gente para suas linhas de produção, o que pode indicar um novo produto da Apple a caminho. Concordo: um novo iPad.

Aliás, a Digitimes também tem informações que a Apple deve reduzir a produção de iPads Mini em 30% no segundo trimestre de 2013. O que pode talvez representar a chegada de uma nova versão do próprio iPad Mini, o que ao meu ver não é nenhum absurdo, pensando de forma fria e racional.

Mas, se voltarmos ao dia de ontem… o quanto isso prejudicou a Apple na prática?

Bom, além de perder em valor de mercado o equivalente a um mês de vendas da própria Apple em um único dia, a empresa se desvalorizou o equivalente à compra de 22 Instagrams. Ou se desvalorizou quase o dobro do que lucrou no primeiro trimestre de 2013. Não é pouco. Falando em termos práticos, nesse exato momento que você lê esse texto (se é que conseguiu chegar até aqui sem se revoltar, achando que estou falando um monte de besteiras), o mercado espera qualquer coisa, menos que a Apple vai manter os seus lucros em 2014. Em números, o mercado espera que a empresa de Tim Cook cresça 9% no ano que vem, mas esse número não inclui o novo dividendo trimestral da empresa. E com esses tais dividendos, esse lucro pode reduzir para alarmantes 2%.

Já pensou? A Apple crescendo menos que o Brasil? Nem me lembro da última vez que isso aconteceu.

Esses tais 2% estão ligando o sinal de alerta não só nos investidores, mas em quase todos os outros segmentos do mercado que a Apple ajuda a impulsionar, principalmente as operadoras parceiras, as varejistas e os desenvolvedores de aplicativos para iOS. Afinal de contas, muitos dos lucros dos parceiros da empresa estão, basicamente, no fato da marca ainda ser vista como forte, e principalmente, vender unidades dos seus produtos.

A luz no fim do túnel é que, nos últimos anos, os mesmos analistas travestidos de profetas do apocalipse preverem a queda no valor de mercado, a queda nos lucros, e erraram na maioria das vezes. Por outro lado, parece que dessa vez eles acertaram, de forma inesperada. Ninguém esperava que a Apple um dia tivesse ações que alcançassem US$ 705. Assim como ninguém esperava que a queda fosse tão grande (43% em 12 meses, para ser mais preciso).

Os motivos principais são visíveis: uma queda nas vendas do iPhone 5 com uma velocidade maior que o esperado. Isso se refletiu no valor de encomenda de componentes para a fabricação dos smartphones, que saiu de US$ 40 milhões para US$ 30 milhões nesse segundo trimestre de 2103. Outra fornecedora da Apple, a Hon Hai Precision Industry, registrou a sua maior queda de receita em 13 anos, e culpa as redução das vendas de iPhones e iPads.

O cenário parece ser apocalíptico, mas ainda tem uma saída.

A Apple precisa de uma nova linha de produtos. Novos iPads, iPhones (mas, veja bem: não um iPhone “mais do mesmo”, e sim, algo que seja surpreendente), um marketing mais agressivo e, principalmente, reconhecer que a concorrência chegou nos principais segmentos onde a Apple atua e era dominante no passado. Nem falo tanto do mercado de computadores, uma vez que desktops e notebooks estão perdendo mais e mais terreno para os tables. No caso dos tablets, o iPad é o mais vendido em números únicos, mas não é mais o tablet mais vendido do mercado em geral. Os tablets Android com telas de 7 polegadas já assumiram a dianteira, e devem ser os dominantes.

No mercado de smartphones, produtos como o Nexus 4, o Galaxy S4 e até mesmo o Sony Xperia ZQ mostram o quanto o iPhone ficou para trás. A reinvenção do iPhone precisa acontecer, para que o contra-ataque seja efetivo.

E principalmente: Tim Cook precisa reconhecer que não pode mais usar o discurso do “mágico e revolucionário”. Não cola mais. Que eles tragam isso de volta para ter uma briga, uma disputa, uma competição. Caso contrário, não imagino ver Tim Cook como CEO da Apple até o final de 2013. Pode parecer exagero, mas penso que os investidores da Apple vão fazer muita pressão, pois entenderão que o trem está saindo fora dos trilhos.

Por isso… te cuida, Tim Cook. Sua batata (ou maçã) está assando, e rápido!

Com informações do Olhar Digital, The Next Web, Mashable