A palhaçada briga entre Apple e Samsung nos Estados Unidos está finalmente chegando ao seu final, e pode ter reflexos decisivos no mercado de tecnologia. Por causa disso, esse é o momento perfeito para que todos (inclusive este que escreve esse post) liguem a sua bola de cristal eletrônica, ou pegue o DeLoran e viaje a 88 milhas por hora para ver como pode ser o futuro (e suas possíveis ramificações) ao final desse caso. Ou, pelo menos, prever se será algo apocalíptico ou não para o mercado mobile.

Todos os indícios apontam para um veredito não muito claro. A juíza Lucy Koh, jurados e analistas de tecnologia possuem uma vaga ideia do quão perigoso pode ser uma decisão claramente favorável para um dos lados. Além disso, as apelações que os dois lados podem pedir, dependendo da decisão, podem fazer com que o caso se arraste por mais alguns anos. Se somarmos tudo isso, as tais alterações de software que o Android pode sofrer, e o banimento do Galaxy Nexus (caso a Apple vença) só aconteceria em 2014, por exemplo. E esse é apenas um dos cenários.

Como fator complicador da disputa, um tribunal da Coreia do Sul decidiu nessa semana que tanto Apple quanto Samsung infringiram patentes, punindo as duas empresas. Aliás, a disputa das duas empresas existe em outros países, e a peleja pode durar por anos. Na verdade, é muito provável que a corte norte-americana use a decisão preliminar da corte coreana como base para a sua própria decisão, uma vez que os dois lados estão errados na disputa (quero dizer, as duas empresas violaram patentes em algum momento).

Mas, mesmo assim, vamos entrar no mundo da suposição. Vamos supor que, ou a Apple, ou a Samsung, uma delas, seja ela qual for, saia vencedora dos tribunais. O que de pior pode acontecer para o mundo mobile?

Se a Apple vencer…

Fuja para as montanhas, e se prepare para um verdadeiro “apocalipse dos tribunais”. Se a comunidade Android achava que a Apple era um “grande vilão”, eles não viram nada. A Apple se tornará o verdadeiro monstro. Afinal de contas, os aparelhos da Samsung usam o sistema do Google, assim como os demais grandes fabricantes do mercado. Pelas alegações apresentadas, os advogados da empresa de Cupertino podem repetir a mesma estratégia para todos os demais fabricantes (aliás, já começou a fazer isso, com alguns modelos da HTC e da Motorola Mobility, em outras ações nos tribunais). Ou seja, Sony, LG, Huawei e todos os outros seriam alvos fáceis da Apple.

Na prática, se a Apple vencer, ela vai começar a bater de porta em porta para ameaçar qualquer fabricante de smartphone Android no mercado. Pior: se a Apple vencer, eles vão validar a teoria do “nós inventamos o retângulo com cantos arredondados e tela sensível ao toque”, e vai afirmar de forma categórica que TODO MUNDO COPIOU O IPHONE. As patentes de design serão consideradas descartáveis, e a Apple seria considerada a única com o direito de usar tal design. As demais, se quiser, teriam que pagar para a Apple, ou fazer modificações radicais em seus produtos, tanto em smartphones como tablets.

Isso, sem falar que não só a Samsung teria que pagar parte dos lucros que teve com as vendas dos dispositivos ditos “clonados”, mas o Google também teria que desembolsar alguma grana pela suposta “cópia” em relação ao iOS. Muito provavelmente, o Android deixaria de ser um sistema livre, para que justamente o Google consiga pagar pelos tais direitos pertencentes à Apple. Vale sempre lembrar que o principal objetivo da Apple é derrotar o Android, e não a Samsung em si. A Samsung é a principal vendedora de smartphones no mundo, mas é apenas o intermediário de uma causa muito maior. Se for derrotada, a Apple pode aplicar em todas as outras as mesmas sanções e punições.

Se a Samsung vencer…

A Samsung vira o jogo por completo. A empresa coreana vai formalmente enquadrar a Apple por violar várias de suas patentes relacionadas ao padrão de comunicações sem fio. A Apple argumenta que essas patentes são essenciais ou de uso comum e não discriminatória. Do mesmo modo que “um retângulo com cantos arredondados” é algo bem comum, certo Apple?

Porém, uma decisão contra a Apple por violação de patentes desses padrões de redes sem fio pode abrir a porta para outros fabricantes façam o mesmo contra a empresa de Cupertino. Na verdade, seria a oportunidade perfeita para o Google ir para cima da Apple com tudo, uma vez que eles já são proprietários de mais de 17 mil patentes, além de 7.500 patentes adquiridas com a compra da Motorola Mobility, que por sua vez, está na justiça dos Estados Unidos contra a Apple, em mais um caso de violação de patentes. Se levarmos em conta o grande histórico da Motorola no mercado mobile, as chances dela ser bem sucedida são enormes. E as chances da Apple ser a empresa “clonadora” são ainda maiores (isso, na teoria).

Esse cenário seria a maior derrota que a Apple pode sofrer, manchando de forma definitiva a imagem da empresa que, nos últimos anos, além de se destacar como a que mais cresceu no mercado de tecnologia, foi a que mais foi considerada “inovadora” no seu segmento, usando isso como propaganda positiva junto ao seu consumidor. Perdendo o caso, esse mito da Apple ser a “fabricante que inova” cai por terra em definitivo, arranhando a reputação que a empresa possui no mercado.

Além disso, o desejo de Steve Jobs de destruir o Android não seria concretizado. Se a Apple perder, os demais fabricantes investiriam pesado em produtos que seriam cada vez mais próximos da aparência do iPhone e do iPad, e o próprio sistema do Google poderia utilizar elementos visuais e recursos gráficos que hoje são adotados pelo iOS, aproximando ainda mais o conceito dos produtos. Ou seja, o consumidor teriam mais produtos com as mesmas características dos dispositivos da Apple, mas sem precisar pagar os preços absurdos que a empresa de Cupertino cobra.

Por fim, uma vitória da Samsung “quebra as pernas” da Apple sobre suas próprias questões legais, fazendo com que o CEO da empresa, Tim Cook, encerre de vez a disputa (algo que ele quer desde que assumiu a direção máxima da empresa), com a frase “nós tentamos, nós falhamos, vamos seguir em frente”.

Minha opinião:

É claro que isso tudo que falei acima está no mundo da teoria. Particularmente, os dois cenários são lamentáveis e perigosos. Por mim, eu deixaria as duas empresas caladas, no seu canto, com a frase “se preocupem em criar produtos melhores, e que a melhor vença”. Tirar o poder de escolha do consumidor é uma derrota em todos os sentidos. Se aproveitar da ideia dos outros para fazer sucesso é falta de criatividade e convicção nos seus produtos. Como os dois lados estão errados, eu só quero ver essa disputa chegando ao final, e ver a vida seguindo normalmente. Prefiro muito mais escrever sobre um lançamento de tecnologia do que a disputa do direito do uso do retângulo.